Santa Catarina construiu sua economia sobre uma rede de cidades médias, cada uma com sua especialidade: a metalmecânica no Norte, a cerâmica no Sul, a têxtil no Vale do Itajaí, a agroindústria no Oeste, o turismo e a tecnologia no litoral. Essa pulverização é uma força, porque reduz o risco de dependência de um único setor. Mas é também uma fragilidade, porque cria demandas de transporte em todas as direções.

Nos últimos anos, a produção cresceu mais rápido do que a capacidade de levá-la até os clientes. O resultado aparece no dia a dia da indústria: caminhões esperando para entrar nos terminais, prazos de entrega que variam semana a semana e estoques de segurança cada vez maiores.

Três pontos de estrangulamento

O primeiro está nos acessos aos portos, onde o fluxo de caminhões disputa espaço com o tráfego urbano. O segundo está nas rodovias que ligam o interior ao litoral, em especial os trechos de serra, que impõem limites de velocidade e de carga. O terceiro está na ausência de alternativas de modal: a ferrovia ainda responde por parcela pequena da carga e a cabotagem ainda é pouco acessível a empresas de menor porte.

  • Acessos aos portos: filas e variação de prazo encarecem o frete
  • Rodovias de serra: velocidade menor e risco de interdição por clima
  • Falta de alternativa de modal: ferrovia e cabotagem ainda de pouco alcance

O custo de não resolver

Segundo Ricardo Eidt Valença, pesquisador do Núcleo de Competitividade Foz-Planalto, o custo logístico funciona como um imposto invisível: "Ele não aparece na nota fiscal, mas se soma ao preço do produto e tira o fabricante catarinense de licitações e contratos de exportação por margens pequenas."

A indústria grande contorna o problema com estoque e contratos. A pequena não tem esse luxo e acaba absorvendo o prejuízo. — Ricardo Eidt Valença, pesquisador do Núcleo de Competitividade Foz-Planalto

A saída, na avaliação do pesquisador, passa por três frentes simultâneas: dados de tráfego abertos que permitam às empresas planejar cargas, projetos de plataformas logísticas fora dos centros urbanos e programas de apoio para que pequenas indústrias compartilhem fretes.

O que acompanhar daqui para a frente

A discussão ganha urgência porque as exportações catarinenses se diversificam e as empresas de tecnologia e serviços também passam a depender de insumos físicos importados. Quanto mais complexa a cadeia, maior o peso da previsibilidade.

Não há solução única. Mas os países e regiões que atacaram a logística como política de desenvolvimento tendem a ter, ao longo do tempo, uma indústria mais distribuída e menos dependente de poucos grandes exportadores. É uma agenda de longo prazo, e é aí que está o principal desafio: ela exige continuidade acima de ciclos políticos.